Cães Acorrentados: A Vida Passa-lhes ao Lado

Mãe e Filhote

Introdução

Acreditamos que a melhoria das condições de vida dos animais em Portugal passa essencialmente por uma mudança de mentalidades e por um quadro legislativo que proteja os animais de forma eficaz. No caso dos animais de companhia acorrentados ou confinados a espaços exíguos, já existe felizmente legislação nacional que proíbe esta situação. Assim sendo, existem as condições para a promoção de uma campanha nacional para combater esta triste realidade, infelizmente tão comum no nosso país. É verdade que os resultados de uma campanha de sensibilização da população só se vêem a médio ou longo prazo, mas é urgente dar-se o primeiro passo nesse sentido.

A Triste Realidade

Husky Em Portugal, são milhares os cães condenados a prisão perpétua, sem possibilidade de liberdade condicional. Estes animais nada de mal fizeram, nunca cometeram um crime. Contudo, são sujeitos a um castigo pior do que a morte: uma vida na extremidade de uma corrente...

Por todo o país, são demasiados os cães que sofrem em silêncio porque ninguém sabe que estão acorrentados, porque ninguém se importa que estejam acorrentados ou simplesmente porque ninguém quer interferir para tentar melhorar a vida desses animais. Estes animais dormem dentro de um bidão ou dentro de uma minúscula casota degradada, sentam-se sobre a lama ou sobre o cimento gelado, muitas vezes não têm água fresca à disposição, raramente têm atenção...

A maioria destes cães vive toda a sua vida na extremidade de uma corrente, dia após dia, mês após mês, ano após ano... A maioria destes cães nunca passeou, nunca teve o prazer de saber o que é brincar, e muito menos sabe o que é ser acarinhado. Acorrentados pelo pescoço, estes pobres animais não vivem, simplesmente existem. Existem sem respeito, sem carinho, sem exercício, sem interacção social e, muitas vezes, sem os cuidados alimentares e higiénicos básicos. À medida que os dias se transformam em anos, a maioria destes cães deita-se, senta-se, dorme, come, bebe, urina e defeca dentro do mesmo raio de dois metros...

Em muitos casos, o pescoço de um cão acorrentado fica em carne viva e coberto de feridas, não só porque o tamanho da coleira não é adequado ao tamanho do pescoço (a coleira original já era demasiado apertada ou o animal foi crescendo e a coleira não "acompanhou" esse crescimento), mas também porque o cão está permanentemente a tentar forçar ao máximo a corrente para escapar da reclusão a que foi submetido. Não em raros casos, a coleira acaba mesmo por se incorporar no pescoço do animal, acabando por apodrecer essa zona. São casos muito tristes, mas muito reais...

As pessoas alegam muitos motivos para acorrentarem os seus cães. Algumas ficam frustradas com o comportamento do cão dentro de casa e não acreditam que o mesmo possa ser educado para se comportar em condições quando no interior. Muitas outras estão simplesmente a repetir a forma como sempre viram as pessoas que as rodeiam a tratar os cães (avós, pais, vizinhos, etc.), não conhecem outra realidade. Algumas (para não dizer muitas) destas pessoas mal têm condições financeiras para terem um cão. E, sim, infelizmente muitas delas simplesmente estão-se nas tintas para o bem-estar do animal.

Porquê Envolver-me?

Lab Cruelty Muitas pessoas que gostam de animais e vivem perto de cães acorrentados ou confinados a uma varanda, por exemplo, nunca tentaram melhorar a situação. Ou porque simplesmente não se querem envolver, ou porque têm receio de um confronto directo com a pessoa que mantém o animal naquelas condições. Contudo, pela vida do animal, é urgente que se envolvam! É urgente que se envolvam porque nós, como comunidade, temos de fazer passar a mensagem de que manter-se um animal acorrentado é inaceitável. Porquê? Para além da óbvia crueldade, acorrentar um cão não só é mau para o animal, como poderá resultar num ambiente bastante perigoso para as pessoas da zona, especialmente crianças. Um cão continuamente acorrentado e isolado terá maior tendência para se transformar num animal ansioso, neurótico, territorial e inclusive agressivo.

Cabe-nos a nós (cidadãos, vizinhos, conhecidos, etc.) informar e sensibilizar as pessoas que mantêm um cão acorrentado ou permanentemente confinado a um espaço exíguo. A vida de muitos cães mudou radicalmente simplesmente porque alguém se preocupou o suficiente para intervir. A sua intervenção e preocupação podem ajudar a mudar para melhor a vida de um animal.

Etapas de actuação sugeridas:

  1. Envio de Material de Sensibilização
  2. Sensibilização Directa/Pessoal
  3. Denúncia às Autoridades Competentes

Nota: se a situação em que se encontra o animal for muito grave, é aconselhável denunciá-la de imediato às autoridades.

Envio de Material de Sensibilização

O primeiro passo para tentar melhorar as condições de vida de um cão acorrentado consiste em fazer chegar informação educativa às mãos das pessoas por ele responsáveis. Para esse efeito, elaborámos postais de sensibilização e folhetos informativos:

Este material é enviado em nome da Associação Pelos Animais para pessoas que mantenham o seu animal acorrentado ou isolado.

Se tiver conhecimento de algum cão que viva permanentemente acorrentado ou confinado a um espaço exíguo, envie-nos o endereço postal completo dos responsáveis pelo animal e detalhes sobre as condições em que o mesmo é mantido para geral@pelosanimais.org.pt. A identidade da pessoa que nos tiver comunicado a situação permanecerá anónima.

Sensibilização Directa/Pessoal

Rott O primeiro passo consiste em conhecer os responsáveis pelo cão. Por precaução, sugerimos que vá acompanhado. É muito importante que seja simpático, amigável e respeituoso para com a pessoa. Para "quebrar o gelo" poderá, por exemplo, oferecer um pacote de biscoitos para cão.

Comece por se apresentar educadamente e continue com algo do género:

Se a pessoa parecer receptiva, pergunte-lhe o nome do cão (suponha que se chama Bobi) e se poderá ir com ela conhecer o animal. Isto irá dar-lhe a oportunidade de conhecer o cão e o responsável, e de saber por que motivo o cão está acorrentado. Neste caso, poderá ser que consiga ajudar a resolver o problema. Por exemplo:

É essencial ser construtivo, e não crítico. Por exemplo, se o Bobi estiver infestado de parasitas ou demasiado magro, não critique o responsável. Afinal de contas, não queremos que a pessoa fique incomodada com a intromissão, pois tal impossibilitaria o diálogo e uma potencial melhoria das condições de vida do animal. Simplesmente diga algo do género "Tenho uma embalagem de anti-pulgas quase cheia em casa que posso trazer para aplicar ao Bobi", ou então "Parece-me que o Bobi ficaria com bem melhor aspecto com mais uns quilitos. Posso trazer-lhe uma saca de ração gratuita?", ou ainda "Adoro escovar cães. Posso passar por cá um dias destes e tratar do pêlo do Bobi?"

Atenção: Nunca é demais enfatizar que tudo o que oferecer é gratuito!

Depois de conhecer o responsável pelo cão, tente manter uma boa relação. Deixe ocasionalmente guloseimas ou brinquedos, vá perguntando como está o Bobi ou ofereça-se para levar o Bobi a passear ou ao veterinário.

Com o tempo, e com o estabelecimento de uma relação mais próxima, é bem provável que as suas tentativas de sensibilização e informação acabem por surtir efeito, e que o responsável acabe por libertar o cão da corrente e, quem sabe, levá-lo para dentro de casa.

Denúncia às Autoridades Competentes

Quando a sensibilização não surte efeito, ou quando as situações são tão graves que exigem uma intervenção imediata, recomenda-se que seja feita uma denúncia às autoridades competentes --- afinal a legislação existe para ser cumprida. No entanto, nos casos em que seja previsível (por exemplo, pela gravidade da situação) que o animal possa ser apreendido pelas autoridades, é importante garantir previamente a existência de uma família de acolhimento para o animal (temporária ou permanente); caso contrário, este irá parar ao canil, onde poderá ser abatido passados oito dias se não for entretanto adoptado.

Nos termos do artigo 8.º do Decreto-Lei nº 276/2001 de 17 de Outubro (com as alterações introduzidas pelo Decreto-Lei nº 315/2003 de 17 de Dezembro), os animais devem dispor do espaço adequado às suas necessidades fisiológicas e etológicas -- o que não acontece quando estes se encontram acorrentados ou permanentemente confinados a pequenos espaços. As coimas aplicadas aos infractores podem atingir os 3.740 Euros, sem prejuízo de outras sanções acessórias.

As autoridades competentes para fiscalizar e fazer cumprir a legislação de bem-estar animal são as seguintes:

Recomenda-se que os cidadãos efectuem uma queixa junto da polícia ou GNR local e também que comuniquem a situação ao médico veterinário municipal.

Mitigação dos Problemas

APBT Se, depois de tentarmos tudo ao nosso alcance, for evidente que o cão continuará acorrentado ou confinado a um espaço exíguo, poderemos pelo menos tentar melhorar um pouco as condições de vida desse animal. Por exemplo:

Tudo isto poderá ser demasiado óbvio e poderemos inclusive interrogarmo-nos: "Para quê incomodar-me com a pessoa que tem o cão nestas condições, se esta pessoa é tão desconhecedora, insensata ou obstinada?". Contudo, o que está aqui em jogo é a vida de um animal. Da nossa intervenção e preocupação, ou falta dela, dependerá a melhoria das condições de vida daquele animal ou a continuação de uma vida miserável. Ajudar um pouco o animal é melhor do que não fazer absolutamente nada.

Não Fique Indiferente!

Com muito poucas excepções, todos nós já presenciámos esta triste realidade dos cães acorrentados ou isolados. Já os vimos na nossa localidade, já os vimos enquanto passeávamos numa zona rural, já os vimos no prédio em frente... Estes animais anseiam o fim do seu isolamento, desejam ardentemente o calor de um lar, estão cansados de ver a vida passar-lhes ao lado. Bem vistas as coisas, estes cães existem na sombra da nossa comunidade.

Ajude a tirá-los da sombra e a levá-los para dentro de casa! Colabore com a campanha "Cães Sem Correntes" e ajude a demonstrar que a preocupação, a compaixão e a bondade estão vivas e presentes na comunidade portuguesa. Poderá deixar alguns folhetos e postais numa junta de freguesia ou numa loja, por exemplo. Mesmo que a informação não chegue directamente a pessoas que mantêm animais nestas condições, haverá mais pessoas informadas e alertadas sobre esta triste realidade que certamente irão elas próprias fazer passar a mensagem de que manter-se um animal acorrentado é inaceitável. É essencial que a informação vá chegando a um cada vez maior número de pessoas. Pelos animais, por favor, colabore!