Adopções Impulsivas

por Cláudia Hoyle

Este artigo aborda o controverso tema das adopções impulsivas. Muitas pessoas adoptam um cachorro ou gatinho sem terem pensando bem se realmente o queriam, movidas por uma necessidade inexplicável e quase física de “salvar” o animal e dar-lhe uma casa. Esta reacção não é disparatada e sem explicação. Os cachorros e os gatinhos suscitam nos seres humanos o mais íntimo desejo de protecção e cuidado.

A Drª Patricia MacConnell, no seu livro “The Other End of The Leash”, explica:

«Este conjunto de proporções próprias de um bebé, provocam uma reacção que é típica à nossa espécie. “Aaaah!”, dizemos quando observamos a foto de uma criança, reagindo com sentimentos profundos de protecção e cuidado. Esta reacção é tão universal que os psicólogos a chamam de “fenómeno Aaaah!”. Passem um slide de um bebé pequeno e bonito no ecrã e ouvir-se-á um “Aaaah!” uníssono vindo da audiência. Esta reacção não é disparatada, nem trivial, é biologicamente importante para o ser humano. Se os adultos não reagirem a esses sinais, não serão certamente bons pais. Se não forem pais bem sucedidos, não transmitirão os seus próprios genes. Portanto, a selecção natural criou uma espécie que fica babada quando vê bebés ou feições tidas como infantis.»

Nós, humanos, reagimos aos cachorros da mesma forma que reagimos a um bebé desprotegido, dadas as suas feições infantis. Cabeças desproporcionadamente grandes em relação ao corpo, olhos grandes e separados, patas farfalhudas e movimentos desajeitados levaram a que milhões de pessoas levassem um cachorro para casa, sem pensarem dois segundos no que essa adopção implica. Infelizmente, um cachorro só o é durante os primeiros meses da sua vida. Depois, rapidamente desenvolve qualidades físicas típicas de um cão adulto, tornando-se num adolescente e nós, humanos, já não conseguimos ser tão tolerantes e ter tanta compaixão para com a lista interminável de asneiras que eram engraçadas quando o cachorro era bebé, e que agora são irritantes e um problema.

Em Portugal, a maioria das organizações de recolha e protecção de animais abandonados promove dias específicos de adopções em locais variados de muita afluência, tais como portas de hipermercados ou de outras grandes superfícies, centros comerciais, praças de cidades, etc.

Estima-se que 98% destas adopções são impulsivas: a família Antunes sai de casa para ir ao hipermercado comprar um pacote de arroz e chega a casa com um cachorro nos braços. Embora existam pessoas que levam um animal da porta do hipermercado e acabam com um companheiro para a vida, essas são, infelizmente, uma minoria. Também as adopções feitas para satisfazer o desejo, ou às vezes a birra, de uma criança são críticas, visto que a criança em si vai ter pouca ou quase nenhuma intervenção nos cuidados a prestar ao animal. Os pais não podem, realisticamente, esperar que a criança absorva todas as responsabilidades inerentes a ter um cão como, por exemplo, alimentá-lo, passeá-lo, interagir com ele, levá-lo ao veterinário, educá-lo, etc.

Acresce a tudo isto a componente de muitos destes animais serem adoptados sem estarem esterilizados, o que poderá levar ao nascimento de mais ninhadas ou ao abandono de um animal que irá procriar indiscriminadamente.

O problema da superpopulação é um problema real e cada vez mais grave. Segundo a WSPA (Sociedade Mundial Para a Protecção dos Animais), uma única cadela, com uma vida reprodutiva de 6 anos, poderá dar origem a 6.000 descendentes.

Muitos dos animais adoptados por impulso retornam à organização protectora que os deu para adopção, outros são abandonados em canis municipais ou na rua, sujeitos a maus-tratos, fome e/ou morte por negligência. O papel de qualquer organização é promover a adopção responsável e bem sucedida dos animais a seu cuidado. Sendo assim, os dias de adopção promovidos nas condições acima referidas são contrários a esse mesmo objectivo.

Os dias passados nestes locais podem, no entanto, ser importantes na promoção da organização, do seu trabalho, etc. Como tal, estes dias devem continuar, mas os objectivos deviam focar-se nos seguintes pontos:

Quanto mais activo e informativo for o trabalho da organização, mais impacto esta terá dentro da sociedade em que se insere. Uma organização deverá transmitir segurança e conhecimentos válidos ao público que a procura. Uma adopção desnecessária e impulsiva gera situações desastrosas não só para os adoptantes, mas mais ainda para os próprios animais. As adopções devem ser processos bem pensados e planeados, dentro dos quais as necessidades tanto dos adoptantes como dos animais são o principal objectivo a fim de criar relações duradouras e harmoniosas.

Bibliografia:

  1. The Other End of The Leash — McConnell, Patricia, New York, 2002
  2. Esteriliza-me.org, www.esteriliza-me.org
  3. Animals for Adoption, www.suesternberg.com

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